sexta-feira, agosto 04, 2017

Precisamos conversar sobre a nova coleta de lixo de Adamantina

Pessoal, em relação à coleta de lixo em Adamantina há alguns pontos que merecem revisão dos responsáveis. 

Resíduo
Fralda, papel higiênico, papel com gordura, papel de fritura, remédios, anticoncepcional, entre outros, são caracterizados como resíduos, que necessitam ser acondicionados separadamente, e que devem ser destinados para o aterro sanitário! NÃO constituem material orgânico! São altamente contaminantes e não devem ser misturados com os demais materiais. E estão sendo “tratados” como orgânico pelo mapa de coleta. Este ponto precisa ser revisto com urgência.

Material Orgânico
Material orgânico é caracterizado por restos de alimentos, casca de frutas, casca de ovos, folhas, entre outros. Como podemos contribuir? Precisamos diminuir o desperdício de alimento, evitando que grande parte dele seja posto fora. Somos o país campeão em desperdício de alimento, em uma terra tão desigual, onde tantos vivem com tão pouco, refletir e diminuir este desperdício apenas nos tornará mais solidários e empáticos. O ideal é que seja posto fora menos alimentos cozidos – menos desperdício de alimento - e mais restos de alimentos não cozidos como: cascas de frutas e vegetais, folhas de leguminosas, cascas de ovo, entre outros.

Também foi divulgado pela prefeitura, embora seja material orgânico, que as folhas serão recolhidas em dias distintos devido ao volume. 

Outro ponto crucial. É fundamental que o material orgânico (resto de alimentos, cascas de frutas, castas de vegetais, cascas de ovos...) seja separado dos demais resíduos que serão recolhidos no mesmo dia, pois como dito acima, papel higiênico, fraldas, remédios, entre outros, uma vez misturados a este material orgânico poderão contamina-lo. Já que a finalidade deste composto é ser transformado em adubo, uma vez contaminado, em contato com o solo, poderá ser vetor de contaminação não apenas o produto final que é o adubo, mas também, do solo, rios, o lençol freático, plantas e animais, entrando no ciclo e com isso chegando até o homem. Além de ter seu preço de venda reduzido, pois sua qualidade será comprometida.

Outro ponto, de extrema relevância, é que sem esta separação os separadores de lixo serão sujeitos a degradante função de separar material orgânico do resíduo, o que descaracteriza a reciclagem – assemelhando este trabalho a catação em um lixão - e sujeitará estes trabalhadores a condições insalubres de trabalho, e a riscos à saúde!     

Material seco
Quanto ao material limpo, ou “seco” – latas, vidros, plástico, papelão, entre outros -, devem ser acondicionado separadamente. Cabe ressaltar que este material deve ser lavando e seco antes de acondicionado.


Para este tipo de coleta divulgado pela prefeitura, em meu ponto de vista, o ideal seria que fossem utilizados 4 tipos diferentes de acondicionamento. Um para o resíduo, um para o lixo orgânico, um para o lixo limpo e outro para folhas. 
E por que devemos contribuir com todo este processo?

Primeiro passo, compreender que somos produtores e também responsáveis pelo lixo. Segundo, reduzir o consumo desenfreado, refletir sobre nosso estilo de vida, em uma sociedade que valoriza o outro pelo que consome e exibe. Uma sociedade do ter, do parecer e não, do ser. Se vivemos uma grande crise societária, esta inversão de valores é a grande responsável por este problemão.

Outro ponto de extrema relevância, um aterro sanitário é extremamente caro, é uma obra de engenharia que receberá o lixo de uma cidade ou região, nele o lixo fica confinado em um ambiente preparado para evitar a contaminação do solo, do ar e do lençol freático. Além disso, como o lixo não fica exposto a céu aberto, ele não atrai ratos, baratas, aves e outros animais que podem transmitir doenças, como leptospirose, hepatite, febre tifoide, entre outras. Nele há impermeabilização do solo com mantas; compactação e cobertura diária das células de resíduos; coleta e tratamento de gases emitidos; coleta e tratamento do chorume. 

Então, devemos exigir que a cidade tenha um aterro sanitário? Sim, mas ele precisa ser planejado e executado de forma “correta”: um aterro sanitário precisa vir acompanhado de uma campanha maciça de reciclagem e coleta seletiva de lixo, pois se não for dessa forma é dinheiro jogado fora. Mas, por quê? 

Pensem comigo, imaginem todo o lixo produzido em suas residências. Quem já separou o lixo entre material orgânico, lixo seco e resíduo, sabe que o material destinado para a reciclagem ocupa um volume muito grande. Agora imagine dois cenários 
1. No aterro sanitário é destinado todo o lixo da cidade
2. No aterro sanitário é destinado apenas o resíduo (papel higiênico, absorventes higiênicos, fraldas, etc), pois o material orgânico foi designado para compoteiras e o material reciclável foi enviado para cooperativa de separadores de lixo

Qual dos dois aterros terá uma vida útil maior?

O 2 porque é depositado neste aterro uma concentração muito menor de resíduos, aterros do tipo 2 tem vida útil aproximadamente 70% maior do que um aterro onde é destinado todo o lixo.

Dito isso fica mais fácil entender porque manter um aterro sanitário em uma cidade sem coleta seletiva de lixo é desperdício, não apenas de dinheiro público como também de matéria prima e energia. Pois em tempos de energia tão cara e matéria prima cada vez mais escassa todo o material que pudermos reciclar é fundamental para mantermos o equilibro socioambiental e socioeconômico do planeta.

Por isso é imprescindível na gestão de resíduos sólidos da cidade que haja um trabalho integrado entre secretarias da educação, saúde, meio ambiente e planejamento, entre outras para que este tema seja trabalhado de forma inteligente e integrada, que seja uma política pública do município.

Muito dinheiro é despendido para publicidade de prefeituras, que parte desse dinheiro seja utilizado para campanhas inteligentes e criativas, principalmente nas rádios locais, estimulando a sociedade a fazer parte dessa ação, que seja trabalhado em escolhas, que seja construído material didático pelos professores do município sobre o tema, com participação da secretaria do meio ambiente, saúde e cultura. Este é um assunto sério e precisa ser tratado com a devida seriedade pelas autoridades e sociedade, não vivemos mais em eras medievais, saneamento básico é o básico que devemos exigir de nossos governantes.



Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP"



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