segunda-feira, agosto 21, 2017

Chuva e caos, de quem é a culpa?

Ontem vivemos em Adamantina um dia de caos devido a grande intensidade de chuva. O clima está mudando, e isso é claro, mesmo para os céticos das mudanças ambientais globais. Qualquer ser humano que viveu as últimas décadas pode atestar, mesmo não sendo cientista, que o regime de chuvas mudou. Estamos vivendo este ciclo: “consumismo, contaminação atmosférica, aquecimento da atmosfera, aquecimento dos oceanos, derretimento do gelo “perene” do Ártico, consequentemente mais aquecimento dos oceanos e da atmosfera, mudança no regime de ventos, calor extremo, frio extremo, mudança do clima, mudança de biomas, chuva intensa em poucas horas (o que choveria em semanas), pessoas desabrigadas, mortes, maior necessidade de intervir de forma dramática nos solos para produção, seca, maior necessidade de uso de agrotóxicos nas culturas, sem dinheiro sem chance de recuperar solos, mais solo improdutivo, menos agricultura familiar, fome e por aí vai...” 
E quais as consequências? 

Muitas cidades – mesmo as pequenas do interior -, hoje se comportam como ilhas de calor, devido sua imensa quantidade de concreto e asfalto. As chuvas e consequentes enxurradas teriam – em um ambiente planejado - atenuação natural, através das árvores, córregos, matas ciliares, solos arenosos, gramados... Quando o ser humano, ocupa o solo e o utiliza para construção de casas e asfalto, ele naturalmente, está alterando esse ciclo natural. 

Onde deveria haver rios, árvores, córregos, gramados, e por onde deveriam escoar a enxurrada, hoje há casas, muros, asfalto, concreto... Ahhh, então vamos viver no mato? Não, não é isso, na realidade o que deveria ser feito, é basicamente planejar uma cidade – em médio e longo prazos -, compreender que estamos sujeitos a forças da natureza muito maiores e intensas, e não podemos detê-las, a chuva e sua enxurrada e o vento, são exemplos. A força do vento é atenuada por árvores saudáveis, mas o que estamos fazendo? Cortando as árvores, tudo porque temos pavor das folhas, ou podamos de forma drástica, o que leva a árvore a definhar, sem que a gente note, o resultado é: qualquer vento a derruba podendo levar a catástrofes, mas culpa não é das árvores, mas sim da poda mal feita.  

Outro ponto de extrema importância é: não construir em áreas de risco, manter canalizações e bueiros sempre limpos, renovar as tubulações, estimular que a população mantenham quintais limpos e arborizados, em lugar de desertos de cimento. Quando planejar novos bairros, levar em conta a mudança do clima. 

A população contribui, de alguma forma, para que estes desastres ocorram? Sim!, por vários motivos, um deles é não cuidando de seu lixo, ou jogando folhas de árvores em bueiros, mas creio seu maior “pecado” é não cobrar as autoridades, que deveriam agir e planejar uma cidade, não apenas em curto prazo. É fácil ser iludido por promessas de crescimento, novos bairros, casas novas, afinal, segundo muitos políticos, o povo precisa de casa! Sim, mas acima de tudo, necessita de segurança. Vimos ontem muitos vereadores revoltados e preocupados com muitas casas em estado de risco, alagadas, asfalto danificado, mas muitos desses vereadores aprovaram a compra de terreno e a construção de casas populares em área de Área de Proteção Permanente –APP -, áreas sem nenhuma infraestrutura. 

Alguns pontos nessa futura construção chamaram a minha atenção: embora no terreno não haja nenhuma estrutura, segundo a idéia inicial das autoridades, ela chegará ao local, como ocorreu em outros bairros de Adamantina; outo ponto, segundo eles, é que moradores da cidade que pagam aluguel precisam de casa, portanto, que sejam logo construídas. 

Em um primeiro olhar, nada demais, certíssima a argumentação, uma hora ou outra a “cidade” pode chegar até este novo espaço de moradias e sim, com os alugueis com os preços nas alturas, quem não quer uma casa própria? Nessas horas a gente abraça o “diabo” se for preciso, mas esquece de que o “inferno” vem logo em seguida. 

Mas convido vocês a uma reflexão, se olharmos de forma mais acurada, notaremos lacunas nesta argumentação, em minha opinião o problema mais relevante evidencia uma possível falta de planejamento. Eu não posso, enquanto gestor, partir do pressuposto que algo acontecerá simplesmente porque essa seria a regra natural das coisas. 

Quando o gestor “idealiza” uma construção de casas populares, antes de mais nada, é preciso planejar, isto é, colocar no papel toda a infraestrutura que este lugar demandará e deverá receber, desde saneamento básico, a transporte, passando por escolas, creches, viabilidades do projeto, custos, de onde partirá o dinheiro para montagem de toda esta intricada estrutura e, claro, segurança. 

É importante olharmos para a cidade com o olhar mais atendo e menos subserviente, se há dúvidas, converse com os vizinhos, tragam as dúvidas para grupos de discussão. O que não podemos é aceitar, calados, promessas de desenvolvimento que são, ao fim e ao cabo, armadilhas, engodo, que ilustram despreparo. 

Em relação aos novos condomínios que estão nascendo na cidade, já perceberam o que é feito do asfalto para colocar novas tubulações? Arranca-se o asfalto, coloca-se tubos, tapa-se com concreto, depois mais buracos e o que resta é um asfalto todo recortado. Isso ilustra que não houve planejamento, por que é necessário desfazer de um asfalto perfeito para ampliar a tubulação? Porque não foi planejado, o que é feito do plano diretor da cidade? 

Imaginem casas construídas em uma área de proteção permanente, que naturalmente alaga e quem tem como função: atenuar a força das chuvas! Imaginem esta área aterrada – “male má”, né? -, a mata ciliar devastada, asfalto, pouca infraestrutura. Imaginou? Agora pense nos novos bairros da cidade que sofreram com a chuva. É isso, falta de planejamento, mesmo com todos os problemas conhecidos. 

Precisamos compreender que é função dos administradores da cidade antever todos estes possíveis problemas e evitá-los, no máximo mitiga-los. 

Planejamento é a base para dar início a um processo complexo como o uso e ocupação do solo, pois construir moradia é muito mais do que simplesmente erguer casas, é fundamental que a premissa básica de todo gestor seja a qualidade de vida de todo cidadão. 

Não é porque o sujeito necessita que lhe será dado o que é mais “rápido, fácil e simples”. Um ponto precisa ser ressaltado, tudo o que é bem planejado, no final das contas será mais rápido, fácil e simples. Já o que foi feito de forma açodada, com a justificativa de ser o mais “rápido, fácil e simples” acaba sendo “lento, difícil e complicado”, ou seja, se transforma em um pesadelo. Planejamento em médio e longo prazo, é imprescindível! 

Cabe aos administradores da cidade planejar, não apenas a construção de novas casas e bairros, mas em toda a infraestrutura que deverá vir antes mesmo de construí-los. Mas infelizmente, é muito comum imperar a falta de planejamento, dessa forma há atrasos nas obras, projetos são desenvolvidos sem a devida e criteriosa análise e a população “tem” que engolir e acreditar que isso é melhor para ela. 

Uma administração pública precisa ser voltada para a vida no século XXI, seus novos desafios, e ser pautado por inteligência, capacidade administrativa, competência, planejamento em médio e curto longo prazos, e ação. Hoje, prefeitos administram para remediar problemas herdados e repetem os mesmos erros de administrações passadas, deixando um passivo para os que virão. Basicamente é o que se transformou a administração de pequenas cidades, são síndicos arrumando problemas de condomínio, nada além disso. 

Infelizmente a população não dispõe de informações que contribuam para que ela reflita sobre este estado de coisas, mas por incrível que pareça, muitos agentes públicos, que tem papel relevante na fiscalização das atividades do executivo, também não as têm, neste caso, infelizmente, por displicência, negligência, ignorãncia ou conivência. Infelizmente, o cidadão “comum” fica apartado das informações e das decisões relevantes para a sua vida. 

Por este motivo, muitas vezes, até mais importante do que as respostas, é fundamental aprendermos a fazer as perguntas certas, sem medo de dizer bobagem. Não se preocupem com o português, digam o que pensam, o que importam são as idéias, precisamos perder o receio de participar. Se assim não for, o cenário político será ocupado por “interessados”, mais preocupados com seus egos, ganhos e em suas batalhas pelo poder. O espaço público e de decisão não deve ser ocupado apenas por grupos políticos partidários, e interessados, mas sim por todos, esta é a premissa básica da política. 

Infelizmente imersos em nosso asco e descrédito em relação a “política partidária” abandonamos o campo da política. 

Para uma sociedade “viver” sua cidade a participação do sujeito competente, livre e autônomo é fundamental. É imprescindível que o cidadão problematize, reflita, critique, seja propositivo e participe do cotidiano e do processo político de Adamantina. Infelizmente a informação que chega até o cidadão é compartimenta e obtusa, elitista e restrita a ambientes fechados. Quando perguntamos o que o sujeito pode fazer por sua cidade, eu me pergunto: o que estamos fazendo para contribuir para que este sujeito obtenha informação contextualizada, que de alguma formo contribua para que ele (re)signifique sua própria história e compreenda todos os intricados meandros de uma administração pública? 

Adamantina não dorme em berço esplendido, muito pelo contrário, há muito que ser feito, cabe a cada morador da cidade participar e se apropriar de sua história! 
Fonte: Porta Siga Mais - http://www.sigamais.com

quinta-feira, agosto 17, 2017

Um desastre chamado Brasil!

Vamos falar um tiquinho sobre reformas Políticas, de nossas Leis e da Constituição. Quem ainda não foi resgatado por um disco voador sabe, perfeitamente, que reformas são necessárias, mas aí que a coisa pega: é possível mudar o que é ruim e transformar em algo ainda pior? Sempre é!, e em se tratando de Brasil, isso me parece mais regra do que exceção. Não é segredo para ninguém que nossos governantes, executivo e legislativo - de todas as esferas - têm preço, não inventei isso, os senhores da Odebrecht e da JBS nos ensinaram esta lição. Segundo os novos bilionários da JBS, eles tinham no bolso, aproximadamente, 1800 políticos. Estes 1800, entre tantos outros, ocupam cargos e votam para beneficiar o conglomerado JBS. Pois então, estes senhores políticos que têm etiqueta de preço criam leis, programas de refinanciamento de dívidas (Refis), Medidas Provisórias que regulam o mercado. Tudo isso criado não com base em políticas públicas, mas sim, pra maximizar os ganhos de quem pagou a campanha desses políticos. Políticos que recebem via caixa um, dois, três e ainda ficam com as “sobras” milionárias de campanha, fora os favorzinhos que recebem, como caixas de vinhos, reformas em sítios, relógios caros, jatinhos a disposição, e por aí vai. 

O ministro da saúde, por exemplo, foi eleito graças ao dinheiro dos proprietários de planos de saúde, vocês acreditam que a gestão da saúde será baseada em políticas públicas, ou em benefícios à turma da previdência privada? Basta uma análise rápida da gestão e propostas desse senhor ministro para saber que ele tem um patrão, e não é o povo. Estes ministros não entendem nada do riscado, mas ocupam as pastas para beneficiar quem os coloca lá, a população não faz parte. Lembram do Kassab em sua promiscua relação com as teles e buscando impor a todos nós - que já sofremos com serviços de telefonia e internet de quinta categoria - um contador de tempo para o uso da internet?

Mas neste sistema, não apenas políticos têm preço, seria muita ingenuidade de nossa parte acreditar que corruptos por aqui, apenas são os políticos. Se nossos políticos são corrompidos, em sua essência, por promessas de dinheiro e poder, o que nos leva a acreditar que os juízes indicados por estes políticos e intimamente ligados ao “mercado” – aos empresários, industriais, mega-agricultores, isto é, intimamente ligados ao establishment, associados a toda a caixinha de pandora que assombra este país, desde que o primeiro português que por aqui pisou -, o que nos leva a acreditar que os juízes são imunes à sedução do poder e do dinheiro?

STF, TSE entre tantas outras são cortes políticas, sim, políticas!, pois seus indicados ocupam suas cadeiras não por mérito, mas sim por indicação, p o l í t i c a. Qualquer presidente com um pouco de bom senso indicaria o que temos de melhor para a corte, mas infelizmente, assim não é feito, vide a Indicação de Dias Tófofli – que ostentava um currículo, para dizer o mínimo, medíocre -, mas que constava ter sido advogado do PT e subchefe da área de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, durante a gestão de José Dirceu, ou mesmo a indicação de Marco Aurélio Mello, primo de Collor. Gilmar Mendes era Advogado Geral da União no Governo FHC, Alexandre de Moraes era filiado ao PSDB, e por aí vai... A maioria deles, com algumas exceções, são indicados por “interesses” e não competência, em alguns casos, a competência é interessada.

Mas não para por aí, vocês acreditam que a nossa imprensa é desinteressada? Que os conglomerados de mídia, e mesmo os "simples" blogs, se movem por patriotismo e não por fartas verbas distribuídas por interessados? Se o legislativo, executivo e judiciário é corrompido pelo mercado, a mídia é a porta voz, a que dá legitimidade. E a mídia não distingue ideologia ou cores partidárias, há nichos corruptos em todas elas, da esquerda a direita, caixas de ressonância que reproduzem o discurso e criam as narrativas.

Dito isso, você realmente acredita que estas reformas são estabelecidas para, realmente, alavancar o país e coloca-lo na ponta da tecnologia, inovação, saúde educação, só para começar, ou vem ao encontro da maximização de lucros de poderosos, que mantém toda esta engrenagem azeitada?
Eles precisam convencer a patuleia de que tudo isso é necessário, ou o país quebra. E como tem tanto formador de opinião falando a mesma coisa, a gente só pode acreditar que é isso ou isso, de outra forma o país quebra.

Um exemplo, depois da morte do Teori a manchete de um dos telejornais da Globo News foi “Mercado financeiro abre positivo com dados da China, posse de Trump e morte de Teori”, juro, pesquise, não estou inventando, segunda a analista de economia, com a morte de Tori, e consequente não homologação das 70 e tantas delações da Odebrecht, o governo Temer teria tempo para se prepara e rebater as denuncias de corrupção e também tempo de agir no setor econômico, criar um bom ambiente de recuperação, e assim, aprovar as reformas. E não foi nada disso que aconteceu, o cenário político e econômico, de lá para cá, apenas deteriorou.

O novo “santo” da vez se chama Henrique Meirelles, tido por nossa mídia e especialistas – aparentemente “desinteressados - como o “único capaz de tirar o pais desse buraco sem fundo”. Meirelles é a ponte de segurança se Temer for afastado, pois pode cair todo mundo, menos a equipe econômica, isso segundo 10 entre 10 analistas. Afinal, ele é um homem do mercado e está, segundo a mídia esse tal o mercado, fazendo um excelente trabalho tirando o país da crise. Mas vamos pensar um pouco, após mais de um ano e com a promessa do milagre de tirar o pais do atoleiro, um mês depois de Dilma ser afastada, creio que 14 milhões de desempregados e uma inflação em queda porque o brasileiro não tem um tostão para ir às compras não me parecem lá tão milagrosos assim, né, não!?“má vá lá”! Mas além disso, há mais coisas sobre esse tal santo salvador - para os desavisados -, Henrique Meirelles era homem, sabem de quem? Da JBS! Eu me pergunto, todos os dias quando me levanto, o que seria conflito de interesses neste país? A esta resposta é simples, Gilmar Mendes, claro!  😂 😂 😂

O Ministério da fazenda volta suas propostas e ações para agradar ao tal ente “mercado”, tudo é feito para afagar os especuladores de plantão, ou o industrial que parou no tempo, ou banqueiros, ou a bancada do agronegócio, e por aí vai... a premissa é, se o mercado vai bem, o povo, também. Vide a declaração do Ministro da Fazenda, para ele, com a nova lei da terceirização e com a reforma trabalhista haverá abertura de novas vagas de emprego. Veja bem, qual a armadilha escondida nas palavras do ministro? Sucateamento do emprego, consequentemente dos salários...
Com a reforma trabalhista e a terceirização que engloba as atividades fins, talvez sejam abertas novas vagas de trabalho, ninguém garante isso, mas certamente pagarão menos e o trabalhador trabalhará mais, é uma conta que beneficia o patrão, aquele que não investe em inovação, não precisa de mão de obra especializada, mas consegue maximizar os lucros sucateando as vagas de trabalho. É uma lógica perversa. Volta e meia, em programas de economia ou em artigos, a gente vê e lê sobre o espanto do Brasil que se recusa a decolar, taí a explicação.

Muitos ainda não se deram conta, ou até mesmo já se ligaram, mas negam para manter sei lá o que, que esta crise está afetando aos mais pobres. A inflação corrói os salários dos mais pobres, os juros impossibilitam compras, esta parcela da sociedade está endividada, não sabe como pagar a conta de luz que duplicou em menos de um ano, por exemplo. Estes estão vulneráveis porque os nossos governantes, que se apoderaram do poder em todos estes anos de redemocratização, sequer arranharam uma reforma que revolucionasse o país e o catapultasse como potência educacional, social, ambiental energética e econômica, além de promover, em definitivo e de forma irreversível, a autonomia do cidadão através da destruição deste abismo social que toma conta do Brasil, desde que o primeiro português por estas terras desembarcou. Muito pelo contrário, a prova inequívoca que os governos trabalharam/trabalham com a promoção de “meros” ajustes e não com reformas significativas é a tragédia da educação, saúde, transporte público, saneamento e segurança. Todos os governos preferiram pactuar com o sistema, todos! promoveram mudanças que, ao fim e ao cabo, não mudaram nada, pior, (com)vivemos com retrocessos e radicalização ideológica - de direita e esquerda - que mais cega do que amplia nossos horizontes.

Fique com a manchete do Jornal o Globo de 16 de agosto de 2017! Ela ilustra em manchetes o desastre!

quarta-feira, agosto 16, 2017

Sobre escorpiões e descaso...

Infelizmente a infestação de escorpiões em nossa cidade é um assunto recorrente. Um “detalhe”, que simplesmente é fundamental, e usualmente não é dito, mas você PRECISA saber, porque acreditando que estamos atacando o escorpião poderemos, na realidade, estar intensificando a sua reprodução e consequente, aumento a infestação. 

Cuidado! muito cuidado! com a dedetização indiscriminada, pois poderemos, com isso, aumentar os riscos. Segue um extrato de um artigo e o link publicados no Portal EBC – Empresa Brasil Comunicação, do Governo federal -, e entrevista em áudio com um especialista (http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2013/05/dedetizacao-pode-aumentar-casos-de-ataques-por-escorpioes

"De acordo com Manual de Controles de Escorpiões do Ministério da Saúde, dedetizar um ambiente a fim de exterminar os escorpiões faz com que os animais se desalojem, mas permaneçam vivos, aumentando os riscos. Com a aplicação pulverizada do produto, os animais se movem para regiões de superfície, onde não há veneno, e a possibilidade de acidentes aumenta. 
Os escorpiões podem, ainda, permanecer longos períodos em abrigos – como frestas de paredes, telhas, escondidos em caixas e tijolos – que impedem que o inseticida entre em contato com o animal, causando uma falsa sensação de segurança. De acordo com o manual, os escorpiões possuem a capacidade de permanecer com seus estigmas pulmonares fechados e sem se alimentar por um longo período de tempo. “Qualquer veneno mataria o escorpião, desde que atingisse diretamente o animal. Mas, no caso da pulverização, dificilmente isso ocorre”, explica o biólogo da Diretoria de Vigilância Ambiental do DF (Dival), Israel Martins" 
Outro agravante, segundo o Biólogo Randy Baldresca “os inseticidas usados para combater insetos não funcionam para controlar escorpiões". O escorpião amarelo quando provocado (quando é cutucado ou quando ele sofre a ação de um veneno que não o mata), ele dá início a reprodução assexuada. “Ou seja, quando provocado, ele se autoreproduz fora de época e libera de 20 a 30 filhotes no ambiente” 


Se o Manual de Controles de Escorpiões do Ministério da Saúde determina que não é indicado usar veneno para controlar e combater a população de escorpiões, porque os responsáveis pelo controle desse aracnídeo continuam usando desse subterfúgio e estimulando a população a usar veneno? Há que ter estratégia para o controle dos escorpiões na cidade! 

É importante a população procurar se informar e ter muita cautela com aqueles de discurso fácil, que culpam a sociedade, e que criam “dificuldades” para vender facilidades e que ao fim e ao cabo se eximem da responsabilidade! 

A solução para este imenso!! problema não é simplista, muito pelo contrário!, e carece de uma força tarefa, conjunta e integrada entre poder público e população. É necessário, também, que haja uma campanha maciça, inteligente e realista, que realmente informe a população com todo o contexto, visando a sensibilização de todos contra este problema. 

Lembre-se, se há terrenos baldios, terrenos públicos relegados, casas abandonadas, depósitos de lixo, depósitos de tijolos sem fiscalização, entre outros, por mais que nossa casa seja uma pretensa fortaleza contra estes animais, escorpiões continuarão aparecendo. 

O código de posturas do município permite a criação de galinhas na área urbana, na realidade consta que: 
Art.138: São proibidas, no perímetro urbano do município, as seguintes atividades:
a) criação ou engorda de porcos;
b) criação de qualquer espécie de gado;
c) criação de abelhas;
d) criação de pombos nos forros das construções;
e) criação de GALINHAS EM GRANDE NÚMERO;
f) passagem de tropas e rebanhos sem a devida precaução.

Galinhas são predadoras naturais de escorpiões, embora possuam hábitos distintos, as galinhas têm suas atividades durante o dia enquanto escorpiões possuem hábitos noturnos. A galinha “futrica” os espaços onde o escorpião se esconde, e se alimentando deles. Mas cabe ressaltar, que ao mesmo tempo, se há galinhas, mas não há higiene, você resolve em parte um problema e agrava outro, que é a proliferação do mosquito palha, transmissor da leishmaniose, além do que, galinhas não podem ser criadas em qualquer espaço. Sim, estamos em uma enrascada, constituída a conta gotas pela inépcia, incompetência e descaso de governos em todas as esferas e de agentes públicos desinteressados. 

Pragas do passado tomaram a cidade, e além dos motivos já elencados, também, porque a cidade invadiu áreas naturais, sem a preocupação em manter corredores ecológicos que possibilitaria o trânsito desses animais entre uma área protegida e outra, dessa forma, animais como cobras, por exemplo, acabam transitando em áreas urbanas em busca de proteção e alimento.  Isso é consequência da falta de planejamento. 

Em tempos de escassez de recursos, cabe utilizar a experiência de agentes públicos e lançar mão de ações concatenadas entre diversas secretarias. Se não há inteligência, que seja formada, que estes agentes públicos recebam constantes especializações. O que não é justificável é que a população seja refém da inércia das autoridades públicas para resolver estes problemas. E Sim, gestores de politicas públicas, precisam ouvir todos os atores sociais envolvidos. 

Que sentem todos à mesa e promovam debates que visem soluções inovadoras e criativas para os problemas. Os agentes de saúde conhecem cada pedacinho dessa cidade, e são sabedores de detalhes de moradores e residências, então que sejam chamados a participar, que contribuam para traçar estratégias. Em cada bairro há lideranças, em residências há pessoas proativas, então que sejam convidadas para participar. 

Que sejam instituídas áreas de exclusão para escorpião, que pessoas que cuidem de seus quitais - que são conhecidas pelo pessoal que cuida do controle dos vetores e agentes de saúde – sejam estimuladas a criar galinhas que funcionarão como barreiras contra a dispersão de escorpiões, essa é uma idéia, se é viável ou não, cabe discussão. Que depósitos de tijolos e telhas sejam rigorosamente vistoriadas. Que os terrenos baldios e prédios abandonados sejam obrigatoriamente limpos e prioridade para ações de agentes públicos, nem que para isso mudanças em leis sejam necessárias. O que não é aceitável é continuarmos agindo sem um plano estratégico e acreditar que estes são problemas sem solução – que atingem todas as cidades - e que devemos nos adaptar e conviver entre escorpiões, cobras, mosquitos transmissores de doenças que prostram, como a dengue, e que matam nossos animais, como a leishmaniose.

sexta-feira, agosto 04, 2017

Precisamos conversar sobre a nova coleta de lixo de Adamantina

Pessoal, em relação à coleta de lixo em Adamantina há alguns pontos que merecem revisão dos responsáveis. 

Resíduo
Fralda, papel higiênico, papel com gordura, papel de fritura, remédios, anticoncepcional, entre outros, são caracterizados como resíduos, que necessitam ser acondicionados separadamente, e que devem ser destinados para o aterro sanitário! NÃO constituem material orgânico! São altamente contaminantes e não devem ser misturados com os demais materiais. E estão sendo “tratados” como orgânico pelo mapa de coleta. Este ponto precisa ser revisto com urgência.

Material Orgânico
Material orgânico é caracterizado por restos de alimentos, casca de frutas, casca de ovos, folhas, entre outros. Como podemos contribuir? Precisamos diminuir o desperdício de alimento, evitando que grande parte dele seja posto fora. Somos o país campeão em desperdício de alimento, em uma terra tão desigual, onde tantos vivem com tão pouco, refletir e diminuir este desperdício apenas nos tornará mais solidários e empáticos. O ideal é que seja posto fora menos alimentos cozidos – menos desperdício de alimento - e mais restos de alimentos não cozidos como: cascas de frutas e vegetais, folhas de leguminosas, cascas de ovo, entre outros.

Também foi divulgado pela prefeitura, embora seja material orgânico, que as folhas serão recolhidas em dias distintos devido ao volume. 

Outro ponto crucial. É fundamental que o material orgânico (resto de alimentos, cascas de frutas, castas de vegetais, cascas de ovos...) seja separado dos demais resíduos que serão recolhidos no mesmo dia, pois como dito acima, papel higiênico, fraldas, remédios, entre outros, uma vez misturados a este material orgânico poderão contamina-lo. Já que a finalidade deste composto é ser transformado em adubo, uma vez contaminado, em contato com o solo, poderá ser vetor de contaminação não apenas o produto final que é o adubo, mas também, do solo, rios, o lençol freático, plantas e animais, entrando no ciclo e com isso chegando até o homem. Além de ter seu preço de venda reduzido, pois sua qualidade será comprometida.

Outro ponto, de extrema relevância, é que sem esta separação os separadores de lixo serão sujeitos a degradante função de separar material orgânico do resíduo, o que descaracteriza a reciclagem – assemelhando este trabalho a catação em um lixão - e sujeitará estes trabalhadores a condições insalubres de trabalho, e a riscos à saúde!     

Material seco
Quanto ao material limpo, ou “seco” – latas, vidros, plástico, papelão, entre outros -, devem ser acondicionado separadamente. Cabe ressaltar que este material deve ser lavando e seco antes de acondicionado.


Para este tipo de coleta divulgado pela prefeitura, em meu ponto de vista, o ideal seria que fossem utilizados 4 tipos diferentes de acondicionamento. Um para o resíduo, um para o lixo orgânico, um para o lixo limpo e outro para folhas. 
E por que devemos contribuir com todo este processo?

Primeiro passo, compreender que somos produtores e também responsáveis pelo lixo. Segundo, reduzir o consumo desenfreado, refletir sobre nosso estilo de vida, em uma sociedade que valoriza o outro pelo que consome e exibe. Uma sociedade do ter, do parecer e não, do ser. Se vivemos uma grande crise societária, esta inversão de valores é a grande responsável por este problemão.

Outro ponto de extrema relevância, um aterro sanitário é extremamente caro, é uma obra de engenharia que receberá o lixo de uma cidade ou região, nele o lixo fica confinado em um ambiente preparado para evitar a contaminação do solo, do ar e do lençol freático. Além disso, como o lixo não fica exposto a céu aberto, ele não atrai ratos, baratas, aves e outros animais que podem transmitir doenças, como leptospirose, hepatite, febre tifoide, entre outras. Nele há impermeabilização do solo com mantas; compactação e cobertura diária das células de resíduos; coleta e tratamento de gases emitidos; coleta e tratamento do chorume. 

Então, devemos exigir que a cidade tenha um aterro sanitário? Sim, mas ele precisa ser planejado e executado de forma “correta”: um aterro sanitário precisa vir acompanhado de uma campanha maciça de reciclagem e coleta seletiva de lixo, pois se não for dessa forma é dinheiro jogado fora. Mas, por quê? 

Pensem comigo, imaginem todo o lixo produzido em suas residências. Quem já separou o lixo entre material orgânico, lixo seco e resíduo, sabe que o material destinado para a reciclagem ocupa um volume muito grande. Agora imagine dois cenários 
1. No aterro sanitário é destinado todo o lixo da cidade
2. No aterro sanitário é destinado apenas o resíduo (papel higiênico, absorventes higiênicos, fraldas, etc), pois o material orgânico foi designado para compoteiras e o material reciclável foi enviado para cooperativa de separadores de lixo

Qual dos dois aterros terá uma vida útil maior?

O 2 porque é depositado neste aterro uma concentração muito menor de resíduos, aterros do tipo 2 tem vida útil aproximadamente 70% maior do que um aterro onde é destinado todo o lixo.

Dito isso fica mais fácil entender porque manter um aterro sanitário em uma cidade sem coleta seletiva de lixo é desperdício, não apenas de dinheiro público como também de matéria prima e energia. Pois em tempos de energia tão cara e matéria prima cada vez mais escassa todo o material que pudermos reciclar é fundamental para mantermos o equilibro socioambiental e socioeconômico do planeta.

Por isso é imprescindível na gestão de resíduos sólidos da cidade que haja um trabalho integrado entre secretarias da educação, saúde, meio ambiente e planejamento, entre outras para que este tema seja trabalhado de forma inteligente e integrada, que seja uma política pública do município.

Muito dinheiro é despendido para publicidade de prefeituras, que parte desse dinheiro seja utilizado para campanhas inteligentes e criativas, principalmente nas rádios locais, estimulando a sociedade a fazer parte dessa ação, que seja trabalhado em escolhas, que seja construído material didático pelos professores do município sobre o tema, com participação da secretaria do meio ambiente, saúde e cultura. Este é um assunto sério e precisa ser tratado com a devida seriedade pelas autoridades e sociedade, não vivemos mais em eras medievais, saneamento básico é o básico que devemos exigir de nossos governantes.



Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP"



quinta-feira, agosto 03, 2017

Porque e como separar nosso lixo...

Afirmo, com absoluta certeza e sem medo nenhum de errar, que a esmagadora maioria da população de Adamantina não faz idéia do destino dos seus resíduos e das consequências dos mesmos para o meio natural e nossas vidas. Se eu perguntar: qual o destino de seus resíduos? Sua cidade tem coleta seletiva, aterro sanitário ou lixão? Você saberá responder a esta pergunta?

Amigos, não há efetiva reciclagem de material se não houver coleta seletiva de lixo!

Então como deve ser feito este processo?

Coleta seletiva® triagem® reciclagem e reuso® retorno ao consumidor como um novo produto, enviando um mínimo de lixo para os aterros, poupando os já escassos recursos da natureza. 

Este é o caminho ideal a ser percorrido para a destinação final de lixo. Nas residências são separados o lixo orgânico (úmido - alimentos crus, cascas de ovos, casca de frutas, borra de café), resíduos (como papel higiênico, fraldas, por exemplo) do lixo reciclável inorgânico (seco - garrafas pets, latas, vidros, papel, papelão, entre outros). Uma vez feita à separação nas residências há a coleta seletiva, que consiste em coletar separadamente os materiais recicláveis presentes no lixo. O lixo orgânico vai para a uma unidade de compostagem onde é transformado em adubo. O lixo seco  para a triagem e posterior reciclagem. 

A compostagem é um processo no qual o material orgânico do lixo, através de um processo controlado de decomposição biológica, é transformado em "composto orgânico" rico em nutrientes. Neste processo, os próprios microrganismos presentes no lixo são responsáveis pela decomposição. No caso específico do Brasil, onde 50% do lixo é composto por material orgânico, a compostagem, se bem realizada, pode ajudar e muito na diminuição do impacto do lixo no meio, pois reduz significativamente a deposição de material orgânico no ambiente.

Mas, para que se tenha um bom resultado no processo de compostagem, é fundamental que haja a separação de lixo nas residências, e que o material orgânico não venha misturado com o inorgânico, pois quando há esta mistura é comum encontrar pedaços de vidro ou plástico nestes compostos. Além disso, o material inorgânico é rico em metais pesados e acaba contaminando o composto orgânico.

O composto produzido por diversas Usinas de compostagem brasileira é rico em chumbo, mercúrio e cobre. Uma vez que a finalidade deste composto é ser transformada em adubo, em contato com o solo, vai acabar contaminando além do solo, rios, o lençol freático, plantas e animais, entrando no ciclo e com isso chegando até o homem. Este processo de compostagem, sem a separação do lixo é muito perigoso para a saúde humana, podendo causar danos seríssimos. Portanto, o processo de compostagem deve seguir normas muito rigorosas. 

O lixo seco reciclável, que foi separado nas casas, é recolhido separadamente do lixo úmido e levado para as zonas de triagem. Nela os catadores separam o lixo conforme sua natureza: plástico, vidro, papel, entre outros. 

Muitas famílias sobrevivem da venda deste material. A separação do lixo orgânico do inorgânico em casa é imprescindível para o processo de reciclagem. Uma vez misturados, dificultam o processo de "garimpagem" e expõe estes trabalhadores a riscos, além de reduzir o valor comercial desse material, pois o lixo reciclável sujo vale bem menos que o limpo, e a limpeza do material encarece o produto. Toneladas de papel são perdidos porque ele fica sujo ao ser jogado fora com restos de comida. Portanto, o ideal é a que a limpeza e a separação sejam feitas na origem, ou seja, em nossas casas. 

Precisamos compreender que somos produtores de lixo, que somos o responsáveis por este seriíssimo problema ambiental e também, social. O lixo não é apenas um problema ambiental, mas também, um problema cultural. O manejo ambiental saudável dos resíduos deve ir muito além do reaproveitamento ou de um depósito seguro, mas também atacar a cultura consumista, os padrões não sustentáveis de produção e consumo. Precismos repensar nosso estilo de vida e reduzir o consumismo, porque não á energia e matéria prima que sustente nosso padrão de consumo sem que haja aumento da pobreza.  

No caso dos catadores de lixo de Adamantina, além dos lucros de uma reciclagem devemos colocar na balança as necessidades sociais dos grupos de trabalhadores que sobrevivem desta atividade. É imperativa a conscientização destes indivíduos para que exijam melhoria nas suas condições de trabalho e que sejam informados das alternativas mais rentáveis e menos insalubres de reciclagem. Ações que estimulam a formação de associações, cooperativas de catadores de lixo, acompanhados da coleta seletiva e da sensibilização da população trarão benefícios ambientais e socioeconômicos. 

Por favor, vamos ser os vetores da mudança! Hora de pressionarmos nossas autoridades para que promovam o bem estar social e ambiental e de participarmos ativamente dessas ações. 

É direito constitucional de todos nós!

CONSTITUIÇÃO FEDERAL - 1988

Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP"




quarta-feira, julho 19, 2017

Os senhores das moscas e suas pipas

Há um livro chamado, “a menina que roubava livros”. A história de uma garota, afastada dos pais, vivendo, durante a guerra, com uma família adotiva. Ela tinha um livro, mas não sabia ler, o único bem que ela possuía, ela não podia usa-lo. Mas, aos poucos, aprendeu a ler com o pai adotivo e com um “visitante”. À partir daí ela passou a “devorar” livros, mas como ela não podia compra-los, ela lia escondida na biblioteca do prefeito da cidade. Em um tempo onde livros eram queimados em fogueiras, ela tentava salva-los. Esse livro, narrado pela morte, conta a história de vida de uma criança, teoricamente sem futuro, vivendo as agruras da guerra, que buscava nos livros a “cura” para a sua dor. 

Não vivemos esta guerra, nossas crianças não passaram fome por causa de batalhas ou mesmo foram mortas ou perderam amigos e parentes em bombardeios. Na realidade, o que dói, é que não vimemos guerras declaradas, mas sim, vivemos uma guerra civil disfarçada de normalidade. O futuro chegou em nosso país com cara de retrocesso, de atraso, de subdesenvolvimento ético e moral. Somos a mesma caricatura do corrupto Brasil colônia. 

E nesse cenário de guerrilha, que varia conforme o local e berço, as consequências são diferentes entre os “iguais”. É óbvio que nosso país é desigual, que crianças, dependendo do berço que nasceram terão mais oportunidades. Há uma frase marcante do doutor Dráuzio Varella, que se não funcionar como uma bofetada... “mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que ter pais pobres e ignorantes. Nutrição inadequada, infecções de repetição e indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança” – “Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um ambiente acolhedor promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno” 

Há, sim, um abismo cultural e social em nosso país. Jovens de classe mais abastadas tem maiores possibilidades de diversão, viajam, conhecem novos lugares, países diferentes, tem acesso a tudo o que o dinheiro pode comprar. Mas isso não garante que usarão toda a sua caixinha de ferramentas, porque podem, simplesmente, não “estar a fim” de usar todos estes recursos para adquirirem mais cultura, mais preocupados em parecer o que não são. Dinheiro não é sinônimo de cultura, se fosse, os ricos desse nosso país seriam os primeiros a agir para romperam esta bolha cultural e social que nos separam em castas. 

A menina que roubava livros, contra tudo o que poderia ter sido apostado nela, investiu nela mesma, saiu do mundo cruel em que vivia em cada página de livro. Ela não conheceu outros países, ou muitas pessoas em viagem, mas viajou para muitos lugares, conheceu personagens fascinantes, através das páginas dos livros e sabia, perfeitamente, o quão preciosas eram aquelas páginas. 

Nós, em nosso país, não vivemos sitiados por guerras, mas continuamos a “queimar” livros. Somos acossados por nossa própria e particular guerrilha civil, que nos açoita. Tudo isso porque não nos importamos, se há assaltos, mais fácil construir muros e colocar câmeras do que compreender a violência, de onde ela vem, porque acontece. Fingir que o problema não existe é muito mais fácil do que encerrar de uma vez, esta mórbida realidade no ninho, onde ela é gestada. 

Quando a sociedade dá as costas, ela não interfere, pois prefere viver protegida e alheia a realidade que a cerca, mas esta realidade é dura e de alguma forma derrubará os muros construídos. Os mais velhos não agem com sabedoria, são os queimadores de livros, aqueles que não se preocupam em influenciar positivamente os mais jovens. Não agem como guardiões de sua “tribo” e por estas e por outras, são tratados como velhos caretas e quadrados por jovens mal educados, egoístas, inconsequentes e alienados, que nem sabem o que é um livro!   

Aprendemos, desde muito cedo, a cuidar de nossos próprios problemas, e a não nos importar com a coletividade. Queremos, ao nosso modo, ser valorizadas pela sociedade, não por nossas ações, mas pelo que parecemos ser, pelo que exibimos. Nesse nosso mundo das aparências, nossas ações tem menos valor que carrões e imagens tratadas impressionam muito mais do que uma fotografia da realidade, em um mundo interior que aparenta ser o que não é. Enxergaríamos que somos o real reflexo de uma sociedade adoentada, se pudéssemos nos ver sem os disfarces dos filtros? Como já disse Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. 

Como deveríamos agir? Pergunto-me isso todos os dias, o que eu devo fazer? Confesso que sou tomada, muitas vezes, pela desesperança, mas conheço tantos exemplos bacanas, de pessoas tentando mudar o seu redor, começando por si mesmas, que quando sinto que os meus joelhos dobram, tento buscar forças nestes exemplos para não me curvar e me entregar. 

Tenho pensado muito sobre isso nestes últimos dias quando me deparei com uma situação de tão inusitada, que parece ter saído de algum livro como o Senhor das Moscas, ou Capitães da Areia. 

Fui apresentada a Adultos, marmanjos e marmanjas que tentam parecer “bacanas”, descolados e fortes, exaltando suas façanhas ao “brincar” de pipa, com suas linhas passadas em camadas e camadas de cerol. Cerol que mata, mutila, fere, que é crime. O que leva jovens adultos acreditarem que podem, impunemente, alardear sua façanhas com uma arma que mata na internet, em um espaço público? Além claro, de passar vergonha, que de longe não compreendem. Impunidade? Total descolamento da realidade? Egoísmo? Ignorância? Tudo isso junto e misturado? 

Não é nada fácil ler e entender algo do tipo -, isso depois de uma longa discussão sobre riscos de usar cerol na linha da pipa, que essa prática é crime e pode matar -, “tenho 20 anos E solto pipa e tiro relo, cara não tem sensação melhor Podem fazer oque quiserem eu vou soltar sempre não adianta reclamar”.
    
Juro que me deu uma profunda tristeza ao ler esta frase, “solto pipa e tiro relo, cara não tem sensação melhor”, pensei, que tipo de vida leva esta jovem que desconhece sensação melhor do que a de tirar relo soltando pipas? Outros soltadores de pipas, todos adultos, como esta moça, também se manifestaram, claro que com argumentos sofríveis que não podem nem ser chamados de argumentação, mas coisas do tipo, “estes velhos têm inveja”. É de chorar sangue, inveja de marmanjos de mais de 20 anos soltando pipa, usando uma linha que pode matar alguém, cientes desse risco e que mesmo assim, são capazes de lançar, em ambiente público, aberrações como esta “Podem fazer o que quiserem eu vou soltar sempre não adianta reclamar”!

Qual é a perspectiva de vida para esses moços? Sou tomada por uma tristeza monstruosa ao ler o que escrevem. Um deles tentou desmerecer a discussão, questionou a relevância de se questionar a prática de soltar pipas usando cerol, alegando que os buracos da cidade e motoristas embriagados matam mais do que as pipas com cerol. Segundo ele, os críticos dessa prática do relo, em lugar de se manifestar contra buracos e motoristas embriagados, "perdem" tempo discutindo sobre "pipas". 

Esse rapaz, que na realidade não é exceção, evidencia um dos grandes problemas que vivenciamos, enquanto coletividade, que é a incapacidade de dar contexto às informações que nos envolvem, não sabemos contextualiza-las, por este motivo, as reduzimos a nosso mundo e dessa forma, tudo o que não nos diz respeito parece alheio a nós. Não me afeta, portanto, não importa.

Outro problemão, é a redução. Reduzimos tudo para tentar compreender, para dar significado às “coisas”, pois enxergamos e entendemos o “mundo” através de nossa história de vida, mas quando não abrimos nossas mentes para novos contextos, em lugar de realmente entender, enxergamos apenas uma parte da realidade, dessa forma, nós a distorcemos e a manipulamos para caber em nosso mundo. Por exemplo, a reclamação do rapaz, que nos preocupávamos mais com o cerol do que com os buracos nas ruas ou motoristas embriagados, afinal, qual seria a relação da pipa com cerol e os buracos da rua? Ou mesmo, que relação tem a pipa com cerol com um motorista embriagado? São dolorosas ilustrações da incapacidade de se pensar além da caixinha, ahhh que falta fazem bons livros. 

Se reduzirmos estes problemas a “coisas” distintas, uma “coisa” parecerá menor que a outra, mas não são, e muito menos são excludentes.

Um problema não se reduz e se limita a outro, muito pelo contrário, mas isso parece incompreensível para uma cabecinha dualista, egoísta, ignorante e irresponsável. 

O sujeito pode estar preocupado com os buracos da cidade, cobrando constantemente as autoridades sobre este problema, porque além de serem transtornos para os motoristas, e passível de danificar carros e motos, e os buracos podem, sim, provocar acidentes fatais ou feridos. Este mesmo cidadão indignado com os buracos poderá estar inconformado porque um motorista bêbado, após matar dois ciclistas, está respondendo processo em liberdade. E este mesmo cidadão indignado com tudo isso ainda tem tempo para não compreender e aceitar esta tal “brincadeira” de soltar pipas usando cerol.

Muitos podem acreditar que tudo isso é uma besteira, afinal, com tantos problemas que nos envolvem, esse povo vai logo implicar com as pipas com cerol!

Mas uma coisa é MUITO clara, essa “aparente” dualidade entre quem é contra a pipa com cerol e de quem é a favor diz muito sobre nós, de nossa sociedade, e sobre o abismo que nos cerca! 

Outro ponto usado por esse rapaz, o sujeito sai da festa bêbado e pega o carro, exemplo tratado como algo natural. Sinto informar, não é porque muitos dirigem após beber que isso deve ser tratado como normal e correto, pois não é!

A base da educação, da cidadania, do bom senso, e respeito ao outro é saber que uma vez embriagada, a pessoa assume o risco de matar ao dirigir. Uma pessoa bem educada, consciente de seus direitos, deveres e responsabilidade, não dirigirá após beber. Chamará um táxi, mototáxi, andará, pegará um ônibus, pegará carona com amigos, mas não dirigirá. O mesmo digo de quem solta pipa com cerol, o sujeito assume o risco de que pode ferir gravemente alguém, ou até mesmo matar. Isso não é brincadeira, é crime!

Em qualquer lugar civilizado e de relações civilizadas, a simples defesa pública desse ato mereceria reprimenda, não apenas dos que leram, mas também das autoridades, e principalmente dos responsáveis. Política é o ato onde se respeita limites civilizatórios! A liberdade é nossa maior preciosidade, e deve ser defendida com unhas e dentes por todos nós, mas a minha liberdade, a sua, ou de quem quer seja, “acaba” quando começa a do outro. 

É tão simples. Solte pipa, é tão bonito ver o céu colorido, mas não use cerol, porque você estará assumindo o risco de matar e ferir alguém. E isso não é um simples ato irresponsável e inconsequente, pois há muitas consequências, e é crime!